A vida de Durion
“A saga do povo Luviano no futuro”
Capitulo Um
Um encontro nas terras amargas
O sol manchava as formações onduladas da dificultosa orografia do Novo Mundo, as terras distantes eram compostas de planícies e planaltos esculpidos e cavados pelos leitos de rios e terremotos da era antiga, longas campinas sedimentares dotadas de pedregulhos e arvoredos antiguíssimos. Tudo isso coberto pelo fulgor cativante da estrela mestra, esta, maltratava os viajantes com sua força naquela terra. Trotando por entre os vales e descampados, lá estava um pobre cavaleiro e sua montaria magricela. De dorso negro, Rallian trotava devagar por entre as curvas do terreno. Seu portador se chamava Durion, filho de Urion, das terras de Farador. Levava suas crias ao seu comprador, nem imaginava em seus sonhos mais gloriosos do que passaria dali pra frente. Um homem que mudaria o mundo conhecido...
Pistola armada na cintura, sabre enferrujado no lombo do cavalo, e luneta á mão, assim marchava pelas terras centrais do Vice-reino de Farador, colônia da mãe Âmbar desde 1356. Era 23 de Janeiro de 1498. Um ano marcado na história da civilização Luviana. A larga planície cheia de florestas de galerias e bosques em suas extremidades se descobria um descampado sinuoso e quente. Seu alvo era Kalamira, a vila mais ocidental do leito do rio Ummuri.
Infestada de Kobolt´s e Udrute´s, raças orc´s menores e marginalizadas pela fome e guerras nas montanhas. Tais povos amavam a carne bovina e constantemente enfrentavam as tropas do Império na tentativa de saquear as vilas e castelos de Farador. Eram pobres coitados famintos e quase extintos, a espada entre o martelo de Gagaldor (o grande inimigo de Ambarion) e o Império Luviano que escaramuçavam em diversos pontos dos mapas.
Durion tinha vinte e dois anos, sua aparência miserável não fazia acreditar em sua idade, trajava uma longa capa negra e roupas leves de tons avermelhados, todas tomadas de sujeiras e poeiras duma viagem de quase vinte dias pelas zonas perigosas daquele país. Temia muito os Kobolt´s, há dois anos perdera duas vacas nas mãos dos desgraçados e tomara uma flechada envenenada que quase levou seu braço. Seus cabelos negros e sujos chegavam até os ombros em cachos maltratados, sua pele estava morena e ardente pelo efeito das tardes de Farador. Ao menos seus olhos claros o separavam dos pardos; castanho dum tom esverdeado.
Partiu numa nau rumo as terras coloniais para tentar a sorte, parte de sua família veio consigo, sua irmã e dois irmãos menores de oito anos. Seus pais ficaram na maravilhosa Dracon Eair e enviavam capital para a montagem do negócio da família, as remessas cessaram havia um ano. Com o ouro vindo de alto-mar, o núcleo familiar dos Magnus montou uma pequena fazenda donde criavam gado leiteiro e para abate. Gozava duma pobreza consolável, o Novo Mundo não era como nas fotos e mapas.
Agora, conduzia quatro formosas vacas para um comprador no noroeste do reino; um tal de Elmim que fora á sua mínima chácara e encomendara dois pares de gado leiteiro para o mês seguinte. Três bovinas eram jovens e prontas para uma longa vida de aproveitamento de suas tetas, a última já avançava na idade, porém, era extremamente fértil para a procriação. As mais jovens eram malhadas em tons pretos e cinzas, a anciã era marrom escuro em toda sua pele.
A dupla de aventureiros descrevia uma curva pelo curso do rio, utilizando a ponte do Ummuri perto de Kelmir, cavalo e cavaleiro conduziam seu pequeno rebanho até uma grande depressão de terras fofas que davam em duas cachoeiras imensas, bom lugar para descansar e passar á noite. Totalmente desabitada, a região ao anoitecer era bela e perigosa. Assim se fez, adentrando numa caverna próxima as quedas d’água, ali fez sua refeição. Dois bifes de charque cozida na lenha que conseguira. Seu eqüino jantava a pastagem do local afora. Levou as vacas ao fundo da caverna donde as vigiou por toda á noite. Fazia três dias que não dormia direito, apenas por duas horas, sua companhia que guardou o grupo. O esperto Rallian era tão sábio e hábil como muitos homens. No dia seguinte sairia da reta do rio, se distanciando para o leste a fim de encontrar o vale de Kalamira. Logo o poderoso sol reapareceu enfraquecido pelas nuvens gélidas que chegaram sobre Farador.
Caminho retomado; viajava devagar para suas mercadorias avançarem com calma por entre os morrinhos e trilhas de terra batida, pela manhãzinha não era perigoso, pois, os Kobolt´s dormem ao nascer do sol e acordam pelas sete da noite. Subiu e desceu duas pequenas elevações até alcançar uma planície ondulada, ao leste uma vasta vegetação de frutíferas e sementeiras, ao norte avistava a retidão do curso das águas de Ummuri. Agora correria até alcançar o grande cânion de Ummuri donde esperava encontrar a silhueta de Kalamira. Ali, o rio arredondava seu tálamo e abria grossos cortes na terra. Trilhou essa vereda por todo aquele dia, anoiteceu e acampou numa grande pedra em meio ao campo. Usaria a floresta ao oeste como rota de fuga, se fosse preciso. Novamente banqueteou a charque de seu arroio de origem. Pistola em punho guardou as preciosas até o amanhecer.
Na alvorada, fitou seu mapa e percebeu que chegaria á fazenda naquela tarde, pôs-se á marchar forçadamente até uma ascensão da terra em que tentaria avistar a vila Luviana. Caiu o meio-dia quando terminou a difícil subida. As vacas ficaram na encosta pastando enquanto Rallian fazia companhia às tais. Pernas doloridas, cavalgar o dia inteiro acabava com sua coluna, subiu num pedregulho e enxugou a testa com o lenço escrito seu nome; presente de sua irmã. Sacou a castigada luneta que tinha desde infante, limpou a lente e conduziu a vista pelos flancos do horizonte. Lá estava. No exato leste da elevação em que estava, avistara uma conglomeração de casas. “Enfim civilização!”. Assim pensou naquele instante.
Kalamira era uma vila de porte médio, duzentas moradias amontoadas em ruas duma arquitetura sincera que surgiu ao longo dos anos, sua praça central se fixava no epicentro das construções, assim como o costume dos Ambarianos. Casebre fechados de tons brancos e pastéis, bandeirolas de cores vermelhas, amarelas e azuis mostravam as faces da colonização daquela terra. O casarão do exército se diferenciava dos demais em tamanho e cores, fixavam um tom azulado com janelas brancas e pátio rosado. Línguas de fumaça e algumas nuvens encobriam a parte mais ao leste da cidadela.
Importante entreposto dos viajantes, a vila tinha construção datada de cem anos atrás. Muitas pensões e bordéis baratos para entreter os aventureiros do Novo Mundo. Também servia de base de armazenagem das hortaliças produzidas nos vales do Ummuri, de lá partiam para Suldon e Guarninom.
Firmemente vagou pelas trilhas mais abertas até que, pela tarde, se abriu a estradinha de terra batida que conduzia a Kalamira. A vila ficou no horizonte, a fazenda estava próxima. No coração uma alegria tola de estar perto do fim duma viagem triste e inquietante. Louvava o deus Âmbar pela glória de cruzar as terras amargas sem ser atacado.
O terreno se estabilizou enquanto ele novamente seguia o curso do rio, a carta de localização apontava a fazenda como única daquela posição, um pouco mais ao oeste das águas. Ergueu seu rebanho até um amontoado de sedimentos e desceu, retornou por entre ínfimas colinas e morros, ás três da tarde, quando o sol já se acalmava, visou um casarão marrom ao norte. Uma grossa linha de fuligem içava-se através dum ou outro espasmo de explosões distantes. Durion achou aquilo estranho, a época dos desmatamentos havia passado. “Estão explodindo pedregulhos para fazer muros.”, assim pensou. Marchou por mais uns sete minutos, os colapsos de pólvora eram seriamente altos. Ao adentrar há apenas cem metros do casarão, definiu o barulheiro. “Tiros!”, Rallian relinchou pressentindo o perigo.
Os disparos eram constantes, seu coração gelou, o peso de seu pulmão aumentou, afinal, o que estava acontecendo? Um combate entre os jagunços da chácara contra ladrões? Talvez fosse, talvez não. Acalmou seu cavalo, suas vacas estavam distantes cinqüenta metros da cena. Desmontou Rallian a fim de verificar o problema. Sentia medo, porém, precisava saber o que ocorria, uma curiosidade encontrada nos ruralistas em geral. Amarrou o cavalo numa árvore e foi, em curtos passos, ao lugar em que ouvia os tiros.
Pé leve, desde criança espiava seus pais nas hortas e campos, Durion sacou sua pistola e desembainhou à espada com a canhota. À medida que achegava na rota do combate, esmiuçava as evidências. Passou pelas janelas e paredes do casarão, irrompiam em chamas seu interior. Foi quando uma flecha resvalou e tombou a dois metros de seu corpo. Não era um dardo humano, ele os conhecia. “Udrute´s!”, atacam a fazenda a céu aberto. Começou a correr rumo o front do casarão, ouvia vozes humanas e berros na língua dos canibais. Uma silhueta azulada se revelou, portava um mosquetão. “O exército aqui?”. Então compreendeu a situação, tropas do Exército Imperial trocavam tiros com os selvagens. Naquele ponto parou, por um instante recuou e cedeu ao medo, não era trabalho dele, sabia que havia muitos orc´s pelo barulho. Deu alguns passos rumo ao lombo de Rallian, mas, ao ouvir um grito, caiu em disparo ao contorno dum cedro-da-várzea. Assim que cruzou a linha do casarão, fitou uma grande pedra donde se escondiam dois homens fardados. Posicionou-se na árvore, á sua frente cinqüenta ou cem Udrute´s que corriam pelos cantos e campos á vinte metros da fazenda. Os soldados estarrecidos pela aparição daquele infeliz, como pensavam do homem ao ver suas vestes. Durion os encarou, viu que ao flanco deles estavam outros três infantes abrigados nas madeiras em frangalhos duma carroça lotada de maçãs. Ao tentar a comunicação com os dois guerreiros no seu lado esquerdo, uma flecha atingiu o casco da árvore, era a noticia que os Udrute´s os tinham visto. Engoliu a saliva e fixou sua pistola na mão direita, um inimigo mostrou a cabeça atrás de outra pedra, Durion disparou e acertou o crânio do orc.
Os militares também atiraram e vararam mais alguns inimigos que corriam em direção ao corpo dum soldado vestido de pardo, caído uns dez metros á frente deles. Foi quando o infante mais próximo berrou ao vaqueiro:
-O que fazes aqui? Por acaso és a ajuda enviada de Kalamira?-Voz rouca de um ar desesperado, cabelos e traços Luvianos de cores negras.
Magnus tremia de ponta á ponta, estabeleceu um raciocínio e arriscou uma resposta:
-Não, vinha pelo rio, tinha de entregar minhas crias ao dono desta fazenda? Porque os orc´s? O que fazem aqui enquanto a casa pega fogo?
O soldado parou e atirou em outro Udrute ou Arrow para os soldados do Império (Arrow era arco nas línguas nobres dos homens).
-Fazíamos nossa ronda, éramos dez, quando passamos por aqui, já estava pegando fogo e eles saqueavam a casa. Conseguimos expulsar, mas, aumentou o número dos Arrow´s. Todos os outros morreram, nosso sargento agoniza ali na frente, querem sua carne para o jantar. E pelo visto, a nossa também.
Durion havia carregado a garrucha, pensou no que fazer àquela hora, fitou o corpo de doma cor de pele e, tentou dar uma solução.
-Porque não saímos e combatemos á mão enquanto resgatamos o seu sargento?
O combatente meneou a cabeça.
-Impossível, nós somos três contra cinqüenta! Fuja homem, e avise nosso capitão na vila!
Magnus teve vontade de cumprir com a ordem dos soldados, mas, qualquer coisa o fez ficar. Lembrou-se de seu treinamento no exército do dragão. “Nunca deixe um mosqueteiro para trás!”. A voz de seu antigo instrutor veio num flash a sua memória. Fixou a mira num orc postado atrás duma carroça em chamas e atirou outro disparo certeiro. Os infantes também deram uma salva com rifles e pistolas. Ouvia os Udrute´s guinchando de ódio, outro grupo duns dez deles avançava para atacar o corpo do sargento-de-milicias caído.
-Me dê cobertura, eu o resgato, atire nos orc´s o máximo que puderem!- A voz rouca do vaqueiro encheu os militares de espanto e de esperança. Sentiam-se abandonados por seus amigos em Kalamira, mal sabiam que o soldado que correra até a vila fora morto no caminho por um inimigo.
Lotando seu mosquete de pólvora, o guarda - infante Trunom deu-lhe como resposta um sinal positivo. O companheiro ao lado dele acenou uma boa sorte para o valente pecuarista. Outros gestos para os três escondidos na carroça de “Fogo de supressão”.
-Que deus o ajude!
Essa foi a única palavra desferida naquele instante, Durion estava á recarregar a pistola quando viu que o grupo inimigo já se aproximava do corpo do homem caído. Olhou para o céu, no instante nem pensou em família ou vacas, apenas queria salvar aquela vida. No fundo desejava morrer como um bom homem do que fugir para ter algumas moedas de ouro. Engoliu outro grande maço de saliva, segurou firme a espada fina.
Trunom ordenou a salva de tiros em cima da matilha de orc´s, deu certo, os cinco disparos dispersaram o bando. Durion disparou numa corrida desajeitada, os orc´s foram persegui-lo. Outros grupos corriam atrás dele. Momentos de peitos gelados. Apenas avistava as formas do sargento tombado. Em sua visão periférica detectava os rastros das flechas desabando perto da sua posição. Os soldados atiravam loucamente matando muitos Udrute´s que já sacavam as espadas.
Conseguira chegar ao militar ferido, estava desacordado e ardendo em febre. Agachou-se e tentou levantar o homem, os dardos atingiam alvos á meio metro do campeiro, foi quando um udrute veio combatê-lo á espada. Nem hesitou, acertou-lhe um tiro por entre as viceras, estas, voaram longe. Colocou o alferes nas costas e partiu numa caminhada desesperada, os infantes escondidos saíram da pedra e da carroça e foram lutar pelos dois. Atiravam pedras, balas e espadas contra os orc´s.
Meio minuto se passou e Durion estava na árvore com o corpo entre os braços, Trunom e seus amigos voltaram às posições. Comemoravam sob a salva de setas dos raivosos canibais.
-Parabéns! Recuemos agora!-Assim berrava o guarda ao lado de Magnus.
Todos os cinco soldados se protegiam atrás da pedra e carregavam os rifles para uma última saraivada a fim de correr após.
-Mantenham os orc´s ocupados, meu cavalo está atrás do barracão, colocarei o sargento nele e enviarei para Kalamira. Nós fugiremos pelos morrinhos e bosques!
Deste modo, Durion carregou o alferes até Rallian que relinchava ardentemente. A infantaria recuava á medida de seus passos. Desamarrou o eqüino e disse-lhe por entre as orelhas:
-Vai, leva este amigo até a vila, não me decepcione meu amigo, encontrarei contigo lá!
O cavalo era mais inteligente que muitos humanóides, apesar de mestiço, era descendentes de raças nobres da grande ilha. Partiu numa corrida afortunada pela lerdeza dos Udrute´s.
-Podem vir, corramos até o morro!- A ordem foi repetida entre os soldados.
Assim debandaram sob muitos dardos e guinchos dos canibais que os tentavam alcançar. Corriam e corriam por minutos até encontrarem uma subida íngreme suficiente para escalarem rapidamente, de vez em quando, abriam fogo contra os perseguidores mais próximos.
Durou quase duas horas inteiras o encalço dos Udrute´s. Percorreram diversas plantações de milho, soja e outras. Subiram e desceram vastas colinas achatadas como por um martelo, devanearam em muito do caminho para Kalamira. O último bando de inimigos foi despistado num bosque de pinheiros e carvalhos velhos. Os seis Luvianos estavam encharcados de suor, resolveram se sentar abaixo duma macieira no topo dum outeiro. Os militares e o campestre caíram por entre as raízes e moitas na sombra da árvore, passaram longos minutos somente em respirações densas e rápidas. As pernas de Durion tremiam do grande esforço. Trunom foi abraçar o seu salvador, sua face de cachos negros e olhos claros; estava lotada de sujeiras.
-Bendito sejas tu homem. Tu nos salvaste de sermos devorados por aqueles bichos malditos. Estávamos á beira da morte, cercados havia meia hora. –Um forte abraço molhado pela transpiração de ambos foi efetuado. Durion replicou numa pergunta quase que singela.
-Qual teu nome soldado?
-Meu nome é Trunom de Kalamira, filho de Urbon de Soleil.
-E o teu; valente cavaleiro?
-Me chamo Durion Magnus de Amora, filho de Urion de Dracon Eair.
Os outros soldados se aproximaram e também agradeceram o vaqueiro. Apresentaram-se. Chamavam-se Deldirion, Manovar, Sintron e Kukuti. Deste modo, uma longa conversa se iniciou, descansavam enquanto tentavam localizar a estrada para a vila novamente.
-Porque fora parar naquela chácara?-Perguntou o tal de Manovar, já de idade secundária.
-Estava levando quatro vacas de minha propriedade para vendê-lo, quando ouvi os disparos. Pensei que fossem ladrões contra os capangas do senhor Elmim, mas, assim que toquei a descida ao passo da fazenda, vi as chamas subindo. O que na verdade aconteceu?
Deldirion, jovem duns dezoito anos, tomou a palavra.
-Estávamos em nossa ronda do dia, éramos dez soldados e o alferes da cidade que nos comandava. Quando atingimos as terras da fazenda do velho Elmim.
Sintron interrompeu:
-Era bom homem, nos dava espigas e frutas para levar-mos para casa. Tinha uns dois ou três jagunços magros para defender sua posse.
Deldirion continuou:
-Assim que avistamos a casa, ela já crepitava num fogaréu imenso. Fomos ver o que ocorria. Avistamos dezenas de Udrute´s trocando flechas e tiros contra o próprio fazendeiro e seu último guarda. Ao chegarmos já estavam mortos. Engajamos na briga para tentar salvar as mulheres e crianças da casa. Ficamos cercados numa luta sangrenta com espadas, perdemos seis homens. Então, corremos até a frente da casa, nosso alferes foi ferido com muitas flechadas antes de chegar à carroça. Mandamos um amigo nosso, também soldado, avisar a Kalamira nossa situação. Acho que este está morto também. Quando você chegou ao campo, já faltavam as balas.
Trunom enxugou o rosto.
-Nunca vimos tantos Arrow´s juntos, suas vestes tinham uma marca igual, eram uma mesma tribo, talvez inteira. Faz alguns anos que não aparecem por estas bandas. O que queriam?
Um soldado estava longe, Kukuti chamou os companheiros para fitarem a cena abaixo do morro.
-Acho que já temos nossa resposta! Venha ver!
Os cinco homens beiraram a encosta da elevação e, embasbacados, olhavam para á frente.
-Ali tem mais de trezentos deles!- Falou espantado Sintron.
-Não, ali tem mais de quinhentos deles. Estão em ordem de batalha. –Disse Kukuti.
-Uma tribo inteira está marchando para atacar Kalamira! Os malditos formaram um exército! –Afirmou num tom desesperado Trunom.
Durion tentava fechar os olhos e ver a estrada no front do morro vazia. Não, não adiantava, eram fileiras e fileiras de Udrute´s armados de arcos, mosquetes e espadas.
-Podemos com eles não?- Perguntou num espanto imenso.
-Quantos cuidam de Kalamira?
-Nós somos cem soldados. Meia companhia de mosqueteiros com duas peças de fogo. –Disse num tom mortífero Trunom.
-Precisamos avisar o capitão! Esses malditos vão atacar pela manhã! Temos de convocar as milícias e esvaziar a vila. –Repetiu diversas vezes Manovar.
-Vamos correndo, há uma trilha por entre os bosques até a lateral da vila. Chegaremos primeiro, muito antes deles. Assim teremos uma chance. –Falou Trunom
-Vem conosco Durion? –Perguntou Sintrom.
-Sim, preciso pegar meu cavalo, minhas vacas estão mortas nesse momento e junto com elas, meu salário desse mês.
-Falaremos com o capitão do seu ato heróico, pediremos que te ofereça um prêmio por isto. Venha conosco e salve ao menos teu amigo cavalo. –Trunom
-Sim, iremos pelos matagais.
Desta ranhura partiu o sexteto numa corrida intensa por entre alguns arvoredos que davam numa vereda extensa lotada de pinhos. Marchavam e corriam por muitas léguas, descansavam poucos minutos antes de voltarem ao pique. Em suas mentes o medo da destruição e da morte. Tinham que avisar o exército, mas, mesmo o poderoso braço militar da mãe Âmbar era tão minúsculo ali que, esfriava seus ventres ao pensar na batalha. Na mesma hora que o sol se põe, avistaram a silhueta disforme de Kalamira. Casas pequenas e grandes línguas de fumaça oriunda dos fornos...
Uma pequena estradinha de terra batida levava-os a entrada da vila, alcançaram na e adentraram em corridas pela ruela aberta de mais barro que pedra.
A rua principal era flanqueada por grupos de casarões e vilas de pensões, todas sujas e de tinta por renovar. Muitas mulheres de vestidos curtos e tons pastéis andavam aqui e acolá, eram as prostitutas á procura de trabalho. Outras vendiam frutas secas á porta de casa, aliás, se encontrava toda sorte de verduras e frutos além de artesanato nestas barraquinhas aos pés das portas. A aparência e estado do sexteto chamaram atenção da população que os acompanhava com os olhos. Alguns que varriam as varandas de casa os encaravam firmemente. Um velho de bota ralada e carroça á puxar foi tentar assuntar com Durion, este, teve de se esquivar para conseguir manter o passo dos companheiros. O grupo atingiu a praça central da vila, redonda e cheia de feirantes arrumando suas barracas, a guarnição se fixava num imenso prédio de três andares na ladeira sul da praça. De textura mais amigável e bem polida, de paredes azuladas e pátio rosado. Guardando o Q.G., dois mosqueteiros de uniformes bem cortados com suas armas para cima, encostadas entre os pés e as mãos.
Manovar foi falar com eles enquanto os outros descansavam.
Uma continência iniciou o diálogo, em meio às palavras, os soldados fitavam Durion. Os cinco infantes adentraram o prédio, acompanhados do vaqueiro herói. Por dentro, o casarão era feito de escadarias e salas rústicas transformadas em quartos e dormitórios para os praças de Kalamira. No terceiro andar estava o salão de comando, também protegido por um par de guardiões. Um sargento acompanhava o sexteto, Manovar o convenceu da gravidade da situação. Durion pensava se seu cavalo havia chegado á vila inteiro.
A porta da sala fora aberta, dentro havia uma mesa de madeira de lei e muitas cadeiras, á frente, na parede maior, um mapa de Farador. Na cadeira de comando, um barbudo homem fardado. Outros dois sargentos conversavam com ele. Muito espanto demonstrou o staff ao ver os sobreviventes. Capitão desde os vinte anos, o velho lobo da guerra de cinco décadas avistou o jovem camponês que salvara seus soldados. Duma linhagem de militares que combatera duas guerras sucessivas com os pardos, ele ainda participara da campanha de ataque ao plano fortificado de Mumur dos piratas. Sua mão e cabelos cheiravam a pólvora. Runom de Costa Azul, este era seu nome. O comando-maior da vila foi assuntar com o destruído grupo de soldados.
-Diga-me, algum de vós pode me contar o que ocorre? Tenho certeza que para virem falar comigo é porque têm más noticias. –A voz rouca revelou sua avançada idade e inflamação nas amídalas. Runom estava confuso.
Manovar tomou a palavra sob densos pares de olhos dos sargentos.
-Meu capitão, perdoe minha indiscrição ao te perturbar em plena hora do chá, mas, tenho muito pesar em te contar a história de nosso dia hoje. Tenho permissão?
-Continue. –Assim disse Runom, encostando as costas na maciez do couro da cadeira.
-Nós somos o que restou do 5° pelotão de guarda, como bem sabe, este era o nosso dia de assumirmos a ronda e, assim fizemos.
-Sim, vamos me conte. –O cinqüentenário mostrou uma impaciência, normal aos alferes de vilarejos que resolvem causos ridículos.
-Quando deixamos a trilha principal, já na metade de nosso caminho, demos com a fazenda do senhor Elmmir nas proximidades. Encontramos casarão e pastagem em chamas e sob ataque dum numeroso grupo de Udrute´s.
Um dos sargentos do staff perguntou ao menor-patente.
-Orc´s, bárbaros aqui? Já faz anos que não temos esse problema por essas bandas!
-Sim meu sargento, Arrow´s em bando de cinqüenta. Em auxilio aos jagunços e ao próprio senhor, fomos dar combate aos selvagens. Antes mesmo de chegarmos, os corpos de Elmmir e seus peões estavam tombados na pastagem. Trocamos tiros por longos minutos, porém, mais e mais orc´s chegaram até cercar nosso pelotão á frente da casa. Perdemos mais de seis dos nossos, nosso sargento-de-milicia foi abatido em combate. Estávamos à beira da morte quando, este vaqueiro chegou e nos auxilio bravamente tanto em peleja quanto em fuga. Ao seu cavalo foi ordenado que trouxesse o corpo do sargento para esta vila. O bravo homem deixou nas mãos dos orc´s suas valiosas vacas para nos salvar.
Os olhares dos homens da sala foram aos olhos de Durion. Runom sorriu, porém, suspeitava que aquela história não acabasse ali. Manovar prosseguiu após a ordem do chefe.
-Corremos por horas dos nossos perseguidores até que despistamos o último grupo, então, descansamos. Num morrinho á oeste daqui, foi quando avistamos algo terrível meu capitão.
-O que viram, diga-me homem. –Runom temia o pior.
-Fitamos marchando numa trilha que desemboca na entrada da vila, mais de quinhentos Udrute´s em ordem de batalha.
-Quinhentos! Vindo para cá? Como assim? Dê-me detalhes soldado.
-Sim meu comandante, em fileiras e sob muitas bandeirolas, armados de arcos, espadas, lanças e até mosquetes. Somente não avistei canhões.
O capitão e os dois intendentes ficaram espantados.
-Impossível, por essas terras, nunca houve um ataque tão grande, desmanchamos o último acampamento dos selvagens há dois anos. Cinco centenas de inimigos assim, vagando por aqui e acolá? –O sargento-Intendente Fury estava louco com a noticia, seu companheiro de patente se chamava Melquior e fitava a janela, pálido.
Trunom pediu a fala.
-Meu comandante; digo-te mais. O grupo que nos enfrentou era apenas um bando de batedores abrindo caminho para a horda principal. Estarão aqui pela madrugada, suponho que ataquem ao amanhecer.
O tal sargento Melquior abriu a boca.
-Como a guarnição de Kelmir não notou tantos Arrow´s vagando assim?
-Eles devem ter se reunido na foz do Ummuri e descido até aqui. –Respondeu o velho chacal da guerra.
-Devemos convocar todas as milícias da cidade, ordem máxima de recrutamento. –Fury mexia em alguns papéis na mesa enquanto falava.
-Duas horas antes de vocês chegarem aqui, um cavalo negro trouxe o corpo do falecido sargento-de-milicia. –Melquior.
-È meu cavalo! Ele está bem? –Pela primeira vez a voz de Magnus foi ouvida na sala.
-Sim está; os cuidadores de cavalo do exército estão tratando-o no estábulo da vila. –Fury respondeu num tom de pena daquele pobre homem.
-Devo-te muitas homenagens, vaqueiro, aquele homem era meu amigo de dez anos. Graças a tua bravura e destreza poderei rezar e velar seu corpo direitamente. Mas por favor, me diga teu nome e o que fazia por estas bandas? –O capitão sorria tentando esquecer que meio milhar de selvagens estava marchando contra a sua meia companhia.
-Sou Durion, filho de Urion de Dracon Eair. Estava entregando quatros de minhas vacas para o senhor Elmmir quando cheguei ao meio do tiroteio, meus instintos me fizeram ver o que havia e combater os tais Udrute´s.
-Hum, isso é bom. Dracon Eair é uma cidade bela. Segundo meus soldados, você tem pontaria e bravura dum infante. Já fora treinado em algum quartel? –Runom.
-Sim. Há cinco anos fui recrutado no 16° batalhão de mosqueteiros vermelhos e lá recebi treinamento militar por dez meses.
-Isso explica tua bela combatividade, teu reino de origem produz os melhores atiradores que já vi em vida. –Runom.
-Quero lhe dizer uma coisa, Durion do reino dos dragões. Sei de teu prejuízo e por prêmio pelo resgate de meus soldados, lhe pagarei vinte moedas de ouro. Esta batalha que se aproxima não é tua. Se quiser, vá antes dos orc´s desabarem sob nós. –Runom.
Os soldados e sargentos prestavam atenção na conversa entre o capitão e o campestre.
-Sim meu senhor; agradeço-lhe, apenas me desculpo por não poder ter salvado a vida de teu alferes. –Durion abaixou a cabeça por um momento.
-A ti só tenho elogios e, uma proposta. Permite fazê-la, bravo homem?
-De certo, capitão.
-Tu bem sabes da situação de meu pequenino exército e cada homem estacionado em Kalamira será valoroso no combate aos Udrute´s. Inclusive alguém com tanta bravura e destreza como vós. Tu salvaste da maldição da fogueira o corpo de meu alferes, então te proponho. Se ficares e combateres ao nosso lado, convido-te para que comandes a milícia de Kalamira na batalha.
O olhar do staff desaprovava a oferta do chefe, porém, os cinco soldados sorriam. Runom estava sendo em deveras esperto, necessitava dum herói na tropa desmotivada. A cabeça de Durion viajou até sua casa, novamente seu coração não o deixou recuar. Queria ir para casa, porém, e aqueles civis que ele viu. E os bons homens que lutaram ao seu lado na fazenda, todos pais de famílias ou irmãos como ele. Como de costume, aspirou à saliva para dentro e disse:
-Meu capitão, apesar de ser chefe de minha família seria desonra minha não combater ao vosso lado. Acho que não mereço tão importante cargo, mas, se é de vossa vontade. Acima de tudo sou um cidadão desse país e súdito de nosso rei.
Os dois intendentes controlaram suas criticas, nem mesmo sabiam, mas, estavam admirando aquele vaqueiro.
-Então que assim seja agora é Durion, Sargento-de-milicia Durion. Convocaremos os cidadãos dessa vila e lutaremos. –Runom se levantou da cadeira revelando sua protuberante barriga.
-Melquior, toque a corneta na praça e convoque os civis para uma assembléia, conte-lhes tudo e informe que todo homem de dezoito á cinqüenta anos está convocado a se apresentar na praça dentro de duas horas. Feche as saídas da cidade, não deixe ninguém partir sem autorização. Fury prepare o arsenal e as tropas. Junte os pelotões na cidade. Ordene que os civis sejam evacuados para a fazenda do senhor Murim á algumas léguas daqui. Adiante exército Imperial, temos uma batalha para preparar. –Runom pegou sua vareta e desenhou algumas linhas no velho mapa no entorno da vila.
Os intendentes partiram cumprimentando os soldados e o novo alferes.
-Vocês, os cinco bravos, vão para seus alojamentos e descansem, troquem suas fardas. Audaciosos foram e serão na próxima luta. Durion ficará aqui comigo por mais alguns momentos.
Assim se foram os soldados...
Magnus e Runom manteriam uma longa conversa na sala, a maioria sobre suas vida pessoal. Num determinado momento, o mapa da vila foi aberto aos olhos de Durion. Runom lhe diria a situação real das tropas ali postas.
-Estamos em, mais ou menos, cem mosquetes. Temos duas centenas de boas armas guardadas no arsenal da vila, granadas e vinte balas para cada canhão. Com os mosquetões excedentes criaremos duas companhias de milícias. Lembra dos códigos de formação em linha, ataque, contra-ataque, defesa e recuo básico?
-Sim, usaremos as bandeiras?
-Positivo. Deixe-me explicar o que faremos.
O plano foi aberto ao sargento, Runom estava certo de que morreria, mas, cultivava alguma esperança.
A noite adentrou nos horizontes do vilarejo típico da colonização Luviana. Os dois arautos deram o grande aviso aos feirantes e transeuntes que circulavam na praça, o sino do templo foi tocado em “Perigo.”. Um indiscutível temor tomou conta da população de Kalamira. Soldados caminhavam aqui e acolá enquanto mulheres desembarcavam as trouxas de sua debandada. O centro da urbe foi tomado de gritos e choros, filhos e maridos se apresentavam para a batalha. Mães e esposas corriam por entre a estradinha, evacuando o povoado. Até segunda de hora de escuridão total foi acordado um medo e um caos guardados nos corações covardes dos humanos. Carroças carregavam crianças, velhas e velhas. Objetos de ouro, prata e bronze eram abarrotados em caixotes, tudo para evitar o saque dos Udrute´s. As histórias sobre os atacantes circulavam por entre os dentes da humanidade até escorrer nas lágrimas das crianças. Tão logo, a terra batida do caminho para as fazendas ao fundo da futura cena de batalha foi preenchida de corredores e cavalos carregando toda sorte de materiais. Pensões e tabernas fecharam, muitos velhos ficaram com seus infantes primogênitos a fim de defender as posses da família até a morte. Barris e copos cheios de cerveja e vinho foram largados á deus dará pelos freqüentadores dos bares. Dois cursos eram comuns durante a primeira parte da madrugada. O primeiro era de carroças, carros de boi, cavalos, mulheres, crianças, velhos em carrinhos de mão, senhoras caminhando sobre as muletas e outros ocupantes inválidos da vila; todos berravam e gemiam a sorte de suas casas. O segundo, era de caixas e mais caixas com insígnias do exército sendo amontoadas na praça, homens de muitas fases da vida andando rumo ao centro de recrutamento, jovens e senhores de vidas feitas.
Durion lavava-se no banho da base do exército, olhava seu rosto no espelho partido (item valiosíssimo ali). Ao fundo, os sons da retirada dos civis o faziam temer a vida. Ajeitou o broche de sargento e o chapéu com o mosquete e a espada das tropas Imperiais. O que estava fazendo ali, só tinha de entregar as malditas vacas e voltar para casa. Nada disso, se metera numa grande encrenca e só sairia dela de duas formas, num caixão ou numa maca. O guarda que o ajudava esperava do lado de fora do W.C. As fileiras de documentos e cofres eram esvaziadas pelos militares. Estava na hora de começar sua mais difícil missão em vida, um frio tão grande lhe tomou a barriga que teve enjôos por toda aquela longa noite. Ao lado de seu cabo-ajudante fora ao portão da casa de tropas.
Na terceira hora após a meia noite, a vila estava vazia e deserta. Os lampiões das ruas foram apagados, apenas uma forte luz ecoava da praça. Duas fileiras de homens, cada uma com cem milicianos, fora formada e era instruída por um intendente. Outras dezenas de soldados profissionais se amontoavam nas tarefas de preparo da batalha. Segundo alguns batedores, os Udrute´s esperavam o amanhecer num campo bem em frente da vila. Os dois antigos falconetes foram despejados na base no centro do povoado e eram limpos e preparados por vários artilheiros.
Durion murmurou a deus pelo fato de estar ali, na hora e lugar errados para sobreviver. O cabo o levou até a primeira fila de milicianos. Magnus os fitou profundamente, a recíproca era verdadeira, rostos amargados pela pobreza e medo. Roupas beges e azuis, todos com seus chapelões de pano e couro, alguns de tons pretos outros pardos. Estes seriam os bravos que matariam ou morreriam pelo distante rei e Imperador; não, combateriam, pois, suas casas, bares, padarias, ferrarias estavam em Kalamira. Seria um desconfortante fim para tantos anos de trabalho e sofrimento no novo mundo. Estavam gélidos e medrosos, porém, o sangue guerreiro Ambariano surgia em suas veias.
O Sargento-intendente Melquior cumprimentou Durion e o apresentou a tropa. Logo, outros soldados posicionaram a segunda fila de recrutados para ouvi-lo. O Intendente o deixou á sós com a tropa, seu cabo ficou com ele, se chamava Hadon de Criméia. Durion tentava refletir e pensar sobre o que falaria, o olhar desconfortável dos habitantes de Kalamira pesava sobre ele. Fracionou duas partes de emoção e, com alguma pré-definição, começou a falar. Tom trêmulo e ao mesmo tempo humilde.
-Recrutas; temo que seja difícil nesta hora lhes dar boa noite.
Os milicianos sorriram pela pequena piada, um alivio na tensão.
-O que posso dizer? Chamo-me Durion Magnus e sou do sul deste país, estou substituindo o bravo alferes da cidade que morreu na última tarde em combate com nossos próximos inimigos. Eu mesmo os vi, lutei com eles pelo corpo do sargento. Digo-lhes uma coisa, são extremamente inferiores a nós. Baixos, esguios, magricelas e bestas. Apenas seu número os faz uma boa ameaça. Perdoem minha indiscrição, estou nessa situação num afortuno da vida. Sou um vaqueiro que entregava minhas vacas ao meu comprador. Perdi meu gado e pagamento na mão dos Udrute´s. Como vêem, sou da mesma sorte que vocês. Fui escolhido para comandá-los por convite do capitão da vila porque servi num dos melhores quartéis do mundo. Peço-lhes que não me julguem por aparência ou roupa, apenas sou outro Faradoriano que irá defender as terras de meu povo.
Os milicianos se entreolharam em aprovação ao novo comandante. Eram muitos de idade avançada, afinal, o novo alferes era gentil.
-Vocês têm muitos motivos para não fugirem, suas casas e vidas estão neste vilarejo longínquo. Muitos vieram se aventurar no Novo Mundo, este também foi meu destino. Sei que temem, o frio também me assalta. Irmãos, fomos unidos pelas tortas linhas de nosso Deus, vamos vencer aqueles selvagens e lembrar desse dia como o dia em que fomos bravos.
A hora que se seguiu foi de poucas instruções e alguns dos lutadores de Kalamira foram conversar com ele, faltava apenas sessenta e poucos minutos para o amanhecer sangrento. Durion fumava seu último cigarro de viagem, o tabaco era tão ruim que seus olhos lagrimavam fortemente. Alguns soldados confundiram com sofrimento ou saudade, impressionantemente, um estado de êxtase o tomou. O mesmo pensamento repetido daqueles á beira da morte, a frase de “Pela pátria”. Já avançavam às quatro da manhã, os militares já deixavam tudo pronto para o combate. Agora, todos os homens aguardavam de corações apertados pela hora derradeira. Os suprimentos eram de dez tiros por homem. Avistava-se todo tipo de orações e conversas, uns mostravam-se valentes, outros eram abanados por companheiros. Na última ponta, um dos seus comandados veio papear com ele. De face temerosa e cabelos ainda em cor, seu nome era Mimir, apenas dezoito anos. Os completara há duas semanas.
-Olá. Senhor Durion não é? –Fitava a linha de fumo de Magnus.
-Sim. Tende medo, menino? –O sargento improvisado convidou com gestos o garoto para sentar ao seu lado. De alguma maneira olhava o menino Mimir como ele há alguns anos nas tocas dos bárbaros esperando uma matança.
-Muito meu senhor, mas, não me venha falar que sou covarde. Meus irmãos fugiram dois com dezenove e outro com vinte.
-E você? Porque não foi embora?
-O intendente falou ao meu lado, fui um dos primeiros que teve de se recrutar. Avisei meus parentes para que fugissem, meus irmãos se foram antes do bloqueio dos soldados. Minha mãe me disse que eu devia lutar para honrar a família. Mentira, sempre fui sua ovelha negra, ela me manda para a morte.
-Sua mãe te ama meu jovem. Antes do fim, você entenderá isso. –Durion decaiu numa extrema tristeza, uma certeza de morte o dominava. Fazia anos que não olhava o rosto ameno de sua dura mãe.
-Espero mesmo, meu sargento.
A conversa foi acontecendo por mais de meia hora, quando o próprio capitão da vila veio dar ordens à milícia...
Runom reapareceu em trajes de batalha. Doma vasta que ia até os joelhos, peito coberto de medalhas, chapelão anil com o brasão de sua família. Veio acompanhado de dez soldados que carregavam caixotes lotados de granadas. Olhou para a praça, cheia de combatentes a espera da guerra, tocou-lhe um profundo pesar ao saber que aqueles pobres coitados encontrariam a morte em algumas horas. O corneteiro anunciou sua chegada, os dois sargentos-intendentes ordenaram o “fixar linhas” aos praças. Durion e o cabo Hadon assumiram a vanguarda da milícia. O capitão dirigiu-se a eles. Colocou sua mão no ombro direito do alferes e ordenou-lhe que ouvisse suas ordens assim como toda a tropa comandada.
-Milicianos, meus irmãos. Assim que a alvorada chegar estaremos em batalha com nossos agressores. Como comandante desta importante guarnição, fiz de tudo para tentar conservar a integridade da vila. Por este motivo, convoquei os cidadãos á luta. Uma tribo inteira de guerreiros Arrow´s vem assaltar este povoado, seus números superam cinco centenas. Junto a vós, meus soldados lutarão e formaremos trezentos defensores. Nossos inimigos não passam de uma raça baixa e selvagem que foge das guerras nas montanhas. O que eles querem não é a vila, mas, os suprimentos dum saque que servirão para viajarem ao oeste. Não deixaremos que toquem nas vossas casas, lutaremos em defesa de nossa amada vila. Para isso, os armei e equipei com o que melhor temos. Duzentos soldados armados com os mosquetes Imperiais do nosso arsenal. Utilizaremos de outra importante arma tática. Meus homens os entregarão granadas a fim de usá-las em combate. Explicarei seu funcionamento. Estas garrafas estão cheias de óleo, vocês queimarão os fósforos que as acompanham e encandearão seus pavios, a partir daí, terão dez segundos para lançá-las contra as linhas de inimigos. Apenas metade de vocês terá estas letais armas, a segunda linha.
A segunda linha disparará as granadas assim que os Udrute´s tiverem ao alcance, após isto, a prima linha atira com os mosquetes. A segunda linha abrirá fogo e todas as tropas se prepararão para um combate corpo-a-corpo. Se a manobra de ataque for bem sucedida, os orc´s estarão perdidos antes mesmo de encontrar nossas espadas e baionetas. Conto com vocês!
O general fitou o rosto falso de bravura de Durion, foi ao seu ouvido, convidou o cabo para ter com eles.
-Meu amigo, me perdoe vos dizer, mas, encontraremos a morte nessa manhã. Esses homens são valentes, porém broncos, não são soldados. Os Udrute´s lutam da mesma forma antes mesmo da primeira caravela Faradoriana desabar em Soleil. Logo uma companhia de Kelmir virá aqui e verá seus corpos, faça-os morrer como homens de verdade. Esse é meu único pedido, meus soldados morrerão honrados de lutar por essa pequena vila. Eu serei o último a falecer e matarei muito. Lembre-se, use as granadas primeiro, se elas obtiverem êxito, talvez possamos pensar em vitória. Confio em vocês. Que deus o guie até o paraíso...
Assim o general se foi, em passos lentos. Um raio de sol atingiu a vila, era chegada à hora...
A densa névoa se dispersava enquanto as filas de milicianos e soldados aguardavam os Udrute´s, os mosquetes estavam em posição. A milícia se fixara no centro, a primeira fila tinha cem homens e a segunda mais cem. Os imperiais dividiram-se em dois grupos de aproximadamente cinqüenta mosqueteiros e ocuparam os flancos. Os falconetes, os Intendentes e o General estavam na retaguarda, quase na entrada do vilarejo. Uma brisa macia os cobria, era uma manhã gelada. Magnus sentia seu coração bater tão forte que quase não conseguia respirar. Já havia sentido aquilo, prometera que nunca mais estaria numa batalha. Tentou se lembrar dos ensinamentos do quartel. Aproximou o mosquete ao peito, ao seu lado, o cabo Hadon olhava fixo para o horizonte, inerte. Um cavaleiro de farda azulada se aproximou do pequeno exército Luviano. Foi direto para Runom, a noticia esperada, quinhentos canibais se dirigindo pela estradinha em formação de guerra. A flâmula vermelha foi alçada. Hadon a viu e foi a Durion; uns dez passos á leste.
-Sargento, o inimigo se aproxima. A bandeira de preparar foi levantada.
Durion sorriu num desespero fúnebre, suas mãos tremiam enquanto ele apertava o corpo do mosquetão. Olhou para o rosto jovem do militar. Coitado daquele homem, não devia estar ali.
-Diga-me cabo, em quantas batalhas você já lutou?
Hadon riu e se concentrou novamente, tocou o ombro do alferes.
-Nenhuma senhor, apenas alguns tiroteios com bêbados e bandidos.
Os dois caíram numa gargalhada lotada de saliva e preocupação.
-Vai ser bom morrer ao seu lado senhor Durion, apesar de sua classe, você até que é um herói.
-Eu esperava um lobo da guerra, mas, tem meio milhar de bárbaros vindo me matar. Iria morrer de qualquer jeito!
-Estarei com você senhor!
-Obrigado cabo.
Os dois apertaram as mãos geladas e fecharam os sorrisos.
-È melhor prepararmos os homens. Diga a primeira linha para carregar mosquetes, eu falarei com nossos granadeiros improvisados para ficar de fósforos em punho.
-Sim, você dá a ordem de ataque, eu não tenho idéia de quando eles vão estar perto o suficiente.
-Tudo bem. Vamos lá.
Durion foi falar com a linha de frente.
-Homens, eles estão chegando, carreguem os mosquetões e fiquem firmes. A hora do combate chegou, pensem em suas casas e famílias. Hoje de tarde comemoraremos a vitória. Se isso não acontecer, morreremos como os antigos, uns amontoados nos outros, como bons Ambarianos que somos!
Os milicianos esboçaram um sorriso, começaram a carregar as armas. Hadon fez com que os desajeitados da segunda linha sacassem seus palitos de fósforos e granadas. Alguns as olhavam admirados, vendo os pedaços de vidro e chumbo dentro delas. Os Imperiais também se arrumavam. Durion assumiu o lugar de sargento na fila de frente enquanto Hadon ficaria com a de trás.
“Uhuhuhuhuhuhuhuh!”. Os arrow´s berravam marcando o compasso do tambor de guerra. No fim do campo, já se via os bandeirões e as primeiras filas deles. Nessa hora, os corações tremeram de verdade. Durion teve um ataque cardíaco ao ver seu inimigo, olhava para os milicianos, caras amarradas e medrosas. Runom sacou o sabre e virou para um dos artilheiros. “Fogo sem pausa assim que eles ficarem na mira!”. O soldado respondeu num “sim”. Aos poucos, a falange de bárbaros foi se revelando tomando o horizonte dos homens. Faces distorcidas, armaduras de cobre e espadas longas. As primeiras tropas traziam mosquetes. Atrás se avistava os arqueiros e o resto da tribo. A bandeira amarela foi içada.
“Segunda linha, preparar para lançar!”. Durion ouviu o berro de Hadon e fitou os homens da primeira linha. Numa voz trêmula e imponente repetiu a ordem. “Milícia, apontar!” Os mosquetões em mãos trêmulas viraram de encontro aos Arrow´s. Os Arrow´s cessaram o avanço, estavam a vinte metros dos homens. Hadon berrou...
“Granadas!”. Os falconetes e granadas voaram pelo céu do combate. Os dois balaços atingiram o centro da formação orc, as granadas caiam em matavam muitos deles, os bárbaros corriam fugindo delas.
Magnus engoliu a saliva. Um último suspiro antes da morte. “Milícia, Fogo!”. A linha de frente atirou seguida pelos Imperiais. Centenas de Arrow´s tombaram ai. Durion avistava como num dominó donde a peça principal desaba. Os pequenos estavam assustados. Em berros em sua linha, os improvisados mosquetes apontaram para os Luvianos. “Segunda linha, fogo!”. Como ensinado, a primeira abaixou e, os antes granadeiros, abriram fogo contra os orc´s. Na maioria, os tais mosqueteiros bárbaros morreram.
Durion começou a ter esperança ali. “Milícia, preparar para corpo-a-corpo!”. Os chamados broncos sacaram suas facas, espadas, sabres e outras coisas enquanto uma chuva de flechas caiu sobre eles. Os poucos mosquetes orc´s atiraram e derrubaram uns pingados da tropa. O terror retomou, principalmente a milícia. Enquanto os dardos caiam, as tropas se mexiam para não serem atingidas. Hadon correu em meio às flechas. “Manter a linha, milícia, mantenham a linha!” Durion repetia a ordem, uma flecha caiu a trinta centímetros de seu pé. Uma corneta dos Arrow´s ecoou junto aos urros dos monstros, estes, agora corriam ao alcance dos humanos.
Magnus viu a falange correndo contra si, nessa hora, tomou coragem, aquela que sempre vem à beira da morte e correu desesperado rumo aos inimigos. Vendo isso, a milícia saiu em disparada para atacá-los, os soldados berravam de ódio. Enquanto no centro, a milícia e os Arrow´s se amontoaram no campo. Nos flancos, os Imperiais deram uma contra carga de baioneta que destruiu o âmbito de ataque dos orc´s. Naquele instante, havia um bárbaro para cada Luviano.
A luta seguiu por instantes, velhos eram decepados, os bárbaros arrancavam-lhes as pernas. Os orc´s também pagavam com as cabeças cortadas, peitos perfurados. Runom observou até seu coração amolecer, sacou seu sabre e foi com seus dois guardas matar os seus orc´s. O que se via era caos duma guerra entre dois exércitos não-profissionais. As lutas incluam mordidas, socos, tiros em compatriotas, deserções e toda sorte de acontecimentos. Durion vacilava com a espada caída na luta com um Udrute. O baixo bárbaro o atingiu em cheio na perna com sua maça. O golpe fez o sargento cair de joelhos. Logo o inimigo preparava executa-lo. Durion se aprontava para morrer. Ficara zonzo do combate. Quando a maça estrela foi elevada à cabeça do Udrute, as duas desabaram no chão; cabeça e arma. A voz de Hadon acordou o sargento. “Hei, não morra! Não está vendo, a vitória é nossa!”. Durion esboçou se levantar quando fitou ao redor os Udrute´s sendo massacrados e cercados no centro do campo. A firmeza, coragem e altura dos homens os faziam imensamente superiores em luta; apenas os muitos velhos eram mortos facilmente. Um tiro tocou o tímpano da dupla, era a garrucha de Runom se fartando da vida dum pobre bárbaro que tentava golpear o cabo por trás. O general caminhou até eles e sacou sua outra arma, apoiou a tal no braço esquerdo e arrebentou a cabeça do porta-bandeira Arrow. Os três comandantes se encontraram no combate e fitavam, calados, a vitória se erguendo. “Ali está, o desgraçado, o pai da tribo. Vejam, lá em frente, vestido de anil.”. Runom carregou a pistola e atirou na barriga do patriarca inimigo. Ao ver seu mestre morto, o que sobrou dos Arrow´s começou uma debandada que durariam vinte e dois dias em direção as montanhas.
-Ah! Matei o miserável, vejo que minha idade não influi em nada em minha mira! Olhem amigos, vencemos, sei que é loucura, mas, a vitória é nossa! –Falou num tom simpático o ancião Runom.
-Nem acredito que sai vivo dessa! –Durion repetia isso em sua mente e boca.
Os homens sobreviventes gritavam “Vitória!” Alguns corriam atrás dos orc´s. Os imperiais os encalçaram por dias, matando outras dezenas na debandada. O furor de vencer os tomou, esqueceram os feridos e se colocaram a despedaçar os orc´s caídos e vivos ainda. Alguns encontraram a fogueira e a forca. Outros viraram escravos das fazendas da região, um foi entregue a Kelmir para ser torturado até a morte. Os homens berravam ao sargento as frases mal pensadas da vitória. “Vencemos sargento, agora vamos beber até morrer!”. Horas se passaram até a população da vila voltar aos brados de vitória e ir ao cemitério que havia virado o campo de combate. Nesse instante que as setenta e sete mortes entre a milícia de Kalamira foram lembradas e sentidas pelas mães, esposas e irmãs dos tombados. Um clima peculiar tomou a vila. Uns comemoravam a vitória, outros choravam a derrubada de seus entes queridos. Durion sentia tanta dor na perna que não fazia nenhuma das duas coisas. Colocou-se num ritual de adentrar a taberna mais próxima e beber na conta dos vencedores. Runom traçava novos rumos para a localidade, o que ficou de seu exército (a quarta parte foi morta ou ferida no combate, tendo outro quarto ido encalçar os orc´s.) queimava as carcaças dos Udrute´s ou transportava as baixa humanas para a praça da cidade. Ao meio dia, todos os defuntos estavam enfileirados e cobertos de rosas, bandeiras, pano branco e sendo velados por suas famílias. Uma cena que o próprio general não quis assistir. O fluxo de volta da população era intenso e enchia a estradinha entre a fazenda e a vila. Depois do almoço, o chefe da vila assentou um decreto convocando todos os combates da batalha de Kalamira para apresentarem armas às sete horas daquele mesmo dia. Magnus estava na taberna “O grito do dragão” ainda sóbrio. Os homens da milícia apertavam suas mãos e brindavam por ele. Hadon cuidava dum carregamento de espólios de combate. Comandou um pelotão que tomou de assalto o acampamento deixado para trás dos Udrute´s. Junto de barracas grotescas, uma pilha de objetos de ouro, cobre, prata, seda e muitas outras iguarias que agora seriam transportadas para a praça e distribuídas as tropas vencedoras. Um desvio dos tais bens foi comum entre o pelotão que cumpria a tarefa. O próprio cabo guardou para si um escudo de prata que provavelmente era do pai da tribo. Os soldados se encarregaram das mulheres e crianças orc´s lá postas. Seus corpos arderam vivos junto ao acampamento em chamas.
Um soldado foi avisar Magnus que este se fizesse apresentável às sete horas da tarde para discursar a população e receber homenagens. O sargento riu e continuou a beber...
As luzes dos lampiões de óleo estavam todas acesas, os não-combatentes envolviam a tropa vencedora nas bordas da praça. A milícia estava ao centro, a maioria embriagada. Durion, que conservara sua sobriedade para não dar “má impressão” as doces velhinhas de Kalamira, estava fixo e de mosquete em punho no front da poderosa milícia. Runom estava montado num corcel negro, em seus flancos, os Intendentes. Os Imperiais estavam à esquerda da milícia. O mais espantoso é que as fardas ainda estavam sujas de sangue, barro e grama. As mulheres olhavam assustadas o tal acontecimento.
O general cavalgou até o centro da praça e começou a discursar tendo sido anunciado pelos corneteiros.
-Cidadãos! Este é um dia de glórias para esta vila, para este vice-reino e para o nosso Império! Um dia valioso para a memória! Hoje nós mostramos ser quem somos e quem nossos inimigos temem. Um exército de ferreiros, lavradores, estaleiros, comerciantes, feirantes, homens simples, velhos, jovens e adultos. Porém, fomos acima de tudo Luvianos. O povo guerreiro. Nossa alma e sangue nasceram das batalhas e, uma vez na vida, nós, cidadãos de Kalamira, fizemos jus ao nosso passado e mito. Uma tribo inteira de guerreiros, armados com toda sorte de armas, uma raça terrível e miserável. Em menor número, com menos armas, temerosos e sem instrução. Mostramo-nos obstinados, corajosos e parte do povo com os melhores soldados que esse mundo já viu! Eu lembrarei desse dia para sempre. Do dia em que virei ao seu sargento-de-milicias e disse que éramos broncos e ineptos e que iríamos morrer. Orgulhoso, peço desculpa e, digo mais, foi tolice minha não ter acreditado em vocês. Glórias a milícia de Kalamira! Glórias a grande ilha! Vida longa aos soldados do Império! Deus salve o Maxi-rei!
O povo berrava gritos de glória ao pequenino feito. Runom apontou para Durion e indicou-lhe a hora de falar. O sargento sorria constantemente, apesar de achar aquilo uma patifaria. Para ele, a vitória já havia acontecido, essas frases feitas dos generais o irritava. Resolveu deixar para outra hora a rebelião lingüística e partiu para o lado do comandante. Fitou as mulheres e as crianças que enchiam as pálpebras de água pelos berros dos homens. Nem mesmo o vaqueiro lembrou do que tinha dito naquele dia. Uma oração esquecida no tempo.
Depois das festas e bebidas, os dias avançaram dez vezes enquanto o andarilho ficara na vila. Longe do vinho doce da vila, o destino de gerações era escrito no palácio da capital...
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
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